sexta-feira, 30 de março de 2018

Talvez

Só, como nuvens em curso
Olhos fechados num piscar
Na face o encontro mudo
Daquilo que é um pesar

Só um somente e talvez se
De umas palavras talvez que
Tão só e somente breve
Nesse leve fingir da lua
Traz assim fortaleza nua
Sem muros, rejeitos, neve...

Só, como o sol brilhando
Olhos cedendo rumando ao pôr
Na boca frases feitas tão só
Alma longe, peito forte, amar

Só um talvez e somente se
Pescar palavras nesse devaneio
Quais usar, tocar, sentir
Se o coração é tão breve
Quanto sorrir?
Talvez viver, talvez vir, talvez ir
Talvez talvez...

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Menino

Guarda o livro
Esconde a bolsa
Cobre o rosto
Não tolero seu desgosto
Cadê a arma
A alma, o suposto
Não tolero seu descaso
Cadê a alma
A arma, o seu rosto?

Guarda o livro
Juvenil errado
Cobre a vergonha
Pobre miserável
Limpa mundo
Limpo tudo
A alma, o corpo
Não tolero seu sorriso
Cadê a calma?

Guarda a desculpa
Donde vem do morro?
Alma sem livro
Limpo tudo
Não quer um livro
Prende prende
A alma, o corpo
Não tolero intolerância
Cadê sua alma?

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Árvore desnuda

Então foi assim

Espinho cutucou a árvore

Reclamou das raízes

Convenceu que era fraca

Disse sobre o tronco

Pesado sob a copa

Um fardo dispensável

A árvore pensou, pensou e pensou

Que poderia dividir-se

O espinho de novo

Com firmeza a cutucou

‘Lança mão das raízes

‘Ao tronco deixa-lhe secar

‘Deixe seu fruto apodrecer

‘Assim irá protestar
.

A árvore assim secou

Feliz com seu trabalho

Cada um teve seu destino

Pelo fardo que a fizeram carregar

Agora estava livre

Livre para poder ser mais leve

Chamou o espinho

Chamou e o espinho ignorou

A árvore nada entendeu

As raízes secas sob si

O tronco descascando em ruína

‘Ó espinho que me ajudastes

‘Por que comigo não falas?

‘Espere árvore querida

‘Logo chega sua saída
.

A pobre da árvore estava sentindo-se só

Sem raízes os ventos muito a balançavam

O tronco todo desfigurado

Era pelo tempo tragado

Mais uns meses sem vida

A árvore quase silenciosa

Sem folhas e sem visitas

Tinha apenas ao espinho

Ansioso para se livrar da vizinha

Firme a vigiar sua presa

Os espinhos nada tinham com a pobre

‘Chegou o grande dia, ó árvore querida

‘Ceifador já vem lhe buscar...

‘Mas oh’! E morreu...

E a espinheira enfim se libertou...

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Dizes não diz

Luz ali
Nada aqui
O mar de amanhã
Ondas de um vizir
Os olhos n'água
O sol tímido a sorrir

Luz ali
Qual noite a sorrir
Uma lágrima?
Dizes não diz
Olhos vibram
Coração pulsa

Luz ali
Quieto calmo
A chorar o luzir
Dizes não diz
Se o amanhã
Sozinho chega
Infeliz perdura...

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Parto

Parto
Não antes de morrer
Deixar um pedaço do ser
Escondido entre palavras
Como a um imenso maldizer
Parto
Não antes de esquecer
Os pedaços que viraram
Das metades que deixei
Em cada verso vencido
Ai de mim manter escondidos

Parto
Não antes de esmaecer
E que estes meus olhos pardos
Que das luzes que viram florescer
Em cada sorriso cínico, perdão
Voltem às sombras dos perdidos
Parto
Mas primeiro chego a esclarecer
Que à morte sigo ao entardecer
Mas antes que os vermes venham aparecer
Parto em vida para renascer

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Vidas

Todos os dias acordar
O passado refletir
Do presente esperar
O melhor que pode vir
Metade de tudo embrulhar
E no esquecimento afundar

O novo há de ser
O melhor do existir
São vidas que se vivem
Quando a paz enfim retorna
No presente sempre estará
Metade do outro tudo a lapidar

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Pássaros

Há um tempo para pousar
Soltar  as penas no ar
Defecar sobre cabeças humanas
Cuspir sempre o mesmo ditado
Enfim amargar o que se come
Pelo próprio estômago embrulhado
Há um tempo para pousar
Deitar-se sobre o próprio vento
Sussurrar o que foi dito
Engolir o restante das palavras
Não há forma fácil de dizer
Nada tão emocionante
Quanto a dura arte de viver
Seja no riso seja no impossível
No choro contido
Ou rios de emoções e culpas
Há um tempo para pousar
Voltar no tempo sem sair do lugar
Refazendo as veias coronarianas
Que regam a alma confusa
Há um tempo para domar
O louco interior
Há um tempo para amar
Todo o tempo que vimos passar

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sucumbi

Leve chegou
Sem alarde sumiu
A brisa deixou
Alegre invadiu

Olhos vivos de luz
Qual dia de sol
Estaremos assim
Leves acordando
Transbordando o dia
No café da manhã
Durante o dia afãs
De peito, alma, coração

Ainda que esteja distante
A estrela sobre mim
Brilha e traz seus olhos
Leve chegou
Sem alarde imprimiu
Um trecho do que
Incógnito busco

Uma brisa serena
Um sorriso ameno
Ainda que distante
Meu coração sucumbiu

terça-feira, 27 de junho de 2017

Paraíso

Por que você empreende fuga
Dos meus sentidos abertos
Meu peito quieto sussurra
Em sua saudade inquieta
Esconde o fogo sob a chuva
Mas ainda assim o fogo
Consumindo minha essência
Por que sua loucura perdura?

Não haveria confusão
Não fosse toda essa ilusão
Somos crias de dias estranhos
Feitos de pedra somos mutantes
Os pés alheios nos afrontam
Como fossemos sentimentais
Talvez apenas pessoas normais
Construindo alguma inteligência

Ao lado de palavras truncadas
Verdadeiros devaneios, dirá
Ainda que houvesse uma leve sensação
Que mostrasse enfim o que
De nós roubou sem perceber
Palavras de admiração, torpor
Que antes eram construídas
Hoje são traçadas num paraíso

domingo, 25 de junho de 2017

Alma plena

Espere... sob a lua
A meia distância
Sua cura
Amores distantes
Coração distante

Espere sob a lua
A toda distância
Nossa cura
Amores errantes
Almas juntas

Que nessa injustiça
Vida que segue injusta
Dorme serena
Beijo quente a dormir
Corpo a corpo... alma plena...